Fotografia

As fotos aqui parecem encenadas – puro teatro! Algumas lembram incidentes, montagens fotográficas do início do século 20. Outras recorrem ao apelo visual de “pictorialistas”, do final do século 19, com atmosferas melancólicas, névoas densas e misteriosas, gestos dramáticos e paisagens idílicas.

Há imagens em que a tecnologia revela o objeto abertamente, sem dissimulações. Recuperam soluções plásticas tradicionais da fotografia, obtidas pelo foco, luz, enquadramento, contraste etc. Os seus autores não resistem ao apelo da reprodução mecânica da foto, direta, sem artifícios. Não hesitam em ceder aos caprichos do caráter técnico da imagem. Registram e coletam. Silenciosamente, as fotos passam a existir. Encarnam a deriva, a liberdade, o gozo, o amor: uma travessia.

Experimentais, sem aspirar circulação em galerias ou em materiais gráficos de peças de design, algumas fotos parecem sugerir momentos de reflexão, propondo narrativas, sussurrando histórias ao acaso. Os ensaios não tentam estabelecer conexão com a arte, por meio de tratamentos conceituais embutidos com profundidade estética ou existencial, como se demonstrassem a sensibilidade, o conhecimento e a perspicácia de seus autores. Afinal, segundo Stallabrass1, esse jogo, quando ocorre, é interminável e inútil. Buscar referências com a história da arte é uma das maneiras mais seguras de se ter uma discussão como se o trabalho fosse arte, recurso de promoção social e intelectual, complemente o autor.

Obviamente, algumas fotos revelam aspectos físicos e humanos ainda presentes numa cultura dominada por velhos problemas estruturais, de ordem econômica e social. Por isso, a noção de perfeição desse modelo é questionada em cenas de abandono e descaso como, por exemplo, o lixo produzido pela sociedade de consumo. Alguns ensaios tornam-se também uma maneira de resistir ao apelo sedutor de coisas comuns no design, voltadas para o mundo global espetacular às custas do pensamento crítico e veiculadas com abundância em publicações de esporte, automóveis, estilo de vida de celebridades, moda, gastronomia, dentre outras.

Por outro lado, as imagens fotográficas tornam-se evidências capazes de separar o maravilhoso do banal, momentos de aparente êxtase, com perda da razão e até do sentido. Coincidências estranhas e justaposições premeditadas apresentam detalhes da vida, ignorando a sua vulnerabilidade. Pelo limite da lente, aspiram conhecer a estrutura fora do quadro que não pode ser inteiramente observada e compreendida. Recuperam a dimensão humanista da experiência fotográfica, evitando tendências contemporâneas em que o mensageiro recebe mais atenção enquanto nega a sua mensagem. Oferecem pequenos elos de conexão, chamando a atenção para as coisas da vida, assegurando sensação de presença e de integração. Recorrem ao sentimento, implorando por intimidade, “uma interioridade de espera”.

 

1 STALLABRASS, Julian. Jeff Wall, Museum Photography and Museum Prose, In: New Left Review, no. 65, September-October 2010, pp. 93-125, London.